Projeto da UFS e UFBA fica entre os finalistas do Festival Educadora FM
Por Sheyla Morales
O Festival de Música Educadora FM, um dos maiores eventos desse gênero no Brasil, completou 21 anos e encerrou, com chave de ouro, no dia 09 de dezembro, com premiação e show onde o homenageado desta edição foi o renomado sambista baiano, que celebra 60 anos de carreira, Nelson Rufino. Compositor de canções como “Todo menino é um rei” e “Verdade”, o sambista lotou a concha acústica do Teatro Castro Alves (Salvador – BA) e junto com as sambistas Roberta Sá e Teresa Cristina alegraram um público de aproximadamente 5mil pessoas.
Ao todo foram 808 inscritos no festival vindos de 85 cidades, sendo 09 estados brasileiros (BA, SE, DF, MG, SP, RJ, PE, RO, PB) e 05 países (Portugal, Itália, Alemanha, Espanha). Através de uma comissão de jurados composta por personalidades da cultura e da música (Xenia França, Tatau, Mônica Millet, Bem Gil e Adriano De Angelis) foram selecionadas 50 obras musicais, sendo 35 da categoria “Música com letra” e 15 da categoria “Música Instrumental”. E o Quarteto de Flautas da Bahia, projeto de extensão desenvolvido entre a Universidade Federal de Sergipe e a Universidade Federal da Bahia, integrou a lista dos 15 finalistas desta última categoria.
O RESULTADO
“Quando soubemos que o Quarteto estava entre as 15 músicas instrumentais finalistas, de um festival que existe há mais de 20 anos, ficamos bastante contentes, porque esses espaços têm sido mais ocupados com música popular brasileira do que com a música de câmara. Apesar de considerar a composição que inscrevemos, “Ameixinha do Papai”, como música popular, já que ela tem o balanço e flerta com a harmonia e gosto modal deste tipo de gênero, ela possui aspectos sofisticados de música sinfônica, de música de câmara, além de ser uma proposta musical vanguardista e esteticamente ousada.”, detalhou João Liberato, flautista do Quarteto, coordenador do projeto e docente do Departamento de Música da Universidade Federal de Sergipe.
Lucas Robatto, integrante do Quarteto e professor da Escola de Música da UFBA complementa. “Esse resultado reflete um pouco sobre o nosso trabalho que é tornar a música que fazemos uma música mais sem fronteira, menos classificável como erudita e popular, mas apontando conexões, e isso foi compreendido pela comissão julgadora do festival”.
Já para Rafael Dias, flautista, discente da Pós Graduação da UFBA e componente do grupo ressalta que “O Quarteto integrar a lista de finalistas de um festival desse porte, acaba abrindo a possibilidade de mais pessoas conhecerem esse gênero musical”.
SOBRE A COMPOSIÇÃO
Sobre os critérios avaliados, João Liberato destaca que “Ameixinha do Papai é uma composição muito bem concebida por Alfredo Moura – músico de grande importância na cultura baiana, um dos idealizadores do Axé Music, fez arranjos para discos antológicos como o álbum “Feijão com Arroz” de Daniela Mercury – e possui um elevado nível estético musical e o Quarteto se empenhou em gravar um fonograma com uma qualidade artística e técnica que ela merecia, e para isso contou com o selo Tupynambá, com os melhores equipamentos e com a estrutura da sala de ensaio da Orquestra Sinfônica da Bahia.”
Lucas Robatto destaca que “Ameixinha do Papai foi um presente que o Quarteto ganhou do querido amigo e colega Alfredo Moura, um músico que transita entre o erudito e o popular e é um dos nomes mais importantes do arranjo no Brasil, tendo uma forte atuação na música popular, mas que tem um conhecimento e uma prática na música de concerto consolidada, tendo uma formação excepcional na área. É uma peça que usa elementos de música de concerto, mas tem uma leveza que transmite uma emoção direta ao ouvinte, típico da música popular, além de estar presente o humor, característica do compositor.”
QUARTETO NA RÁDIO
Liberato analisa que apesar do Quarteto não ter levado o prêmio final, fazer parte dos 15 finalistas já é um feito para este projeto universitário que busca fortalecer e difundir a cultura da flauta transversal e da música camerística no país e também no mundo, visto que uma das premiações para os 50 finalistas é ter sua obra musical fazendo parte da programação da rádio Educadora.FM.
“Para um quarteto de música instrumental brasileira camerística estar presente no repertório de uma rádio aberta é de grande relevância, pois o tipo de música que trabalhamos não costuma ser tocado nessa programação aberta. Agora a música “Ameixinha do Papai” pode alcançar pessoas que jamais tiveram a oportunidade de vivenciar uma experiência musical desse tipo” frisa João Liberato.
“É uma honra ter o fonograma do quarteto sendo tocado na Rádio Educadora-FM, pois um dos principais desafios que a música instrumental enfrenta é a falta de visibilidade”, disse Rafael Dias, compositor de peças interpretadas pelo Quarteto e integrante do grupo.
Lucas Robatto destaca a importância da existência de festivais como o da Educadora-FM, pois eles têm a capacidade de revelar e projetar nomes que não estão visíveis, quebrando a lógica do mercado e das barreiras sociais e culturais, permitindo que o inusitado ocorra como foi o caso da classificação do Quarteto.
“Eventos como esse estimulam compositores a apresentarem suas composições, além disso, serve de escola para formação de um público ouvinte de música instrumental camerística. Ter um festival anual que promove um espaço para a música instrumental é importante, pois é um gênero que não tem abertura na mídia, principalmente, na rádio. Saber que “Ameixinha do Papai” tocará na rádio Educadora-FM traz grande satisfação, pois um público maior conhecerá a proposta musical do nosso Quarteto”, finaliza Leandro Oliveira, o “Tigrão”, flautista do Quarteto, discente da Pós Graduação da UFBA .
SOBRE O COMPOSITOR
Compositor e arranjador baiano, pioneiro na música eletroacústica brasileira. Criou o estilo musical Axé Music, gênero musical que surgiu na Bahia na década de 1980. Doutor em Composição Musical pela Universidade Federal da Bahia e atualmente é professor da Escola de Música desta instituição. Suas composições têm sido interpretadas em diversos países, como Portugal, Estados Unidos, Alemanha, Suíça.
Alfredo Moura, compositor da música finalista, “Ameixinha do Papai”, conta que em meio a tantos desafios que o artista enfrenta, receber essa notícia traz alegria, pois será mais uma obra divulgada publicamente, através do Quarteto de Flautas da Bahia, um grupo composto por músicos de alto nível e pelos quais ele mantém uma relação de grande apreço. Para ele, festivais, como o da Educadora-FM, estimulam o artista.
SOBRE O QUARTETO
O Quarteto é um grupo estável criado com o objetivo de contribuir com o fortalecimento e difusão da cultura da flauta transversal e da música camerística através de concertos, atividades culturais e pesquisa artística, sendo pioneiro deste tipo no país. Lançou dois EP’s (Similitudes, 2020 e Maianguelê, 2022) disponíveis nas plataformas musicais, onde interpreta obras de compositores como Paulo Costa Lima, Alfredo Moura, Fernando Cerqueira, Rafael Dias, Ernst Widmer e Vicente Lusitano. O conjunto é um projeto desenvolvido através de parceria entre a Universidade Federal de Sergipe e Universidade Federal da Bahia, formado pelos flautistas Rafael Dias (discente de pós-graduação da UFBA), Leandro Oliveira (discente de pós-graduação da UFBA), João Liberato (docente da UFS) e Lucas Robatto (docente da UFBA), sendo os dois últimos, os coordenadores do projeto. O projeto ainda conta com a participação voluntária da discente de graduação da UFS, Shéron Morales, e da jornalista Sheyla Morales.
RETROSPECTIVA
João Liberato, coordenador do projeto, destaca que o ano de 2023 – apesar das dificuldades, sobretudo, de financiamento, já que o projeto, apesar de ser inovador e vanguardista, desenvolve um tipo de música que não tem apelo comercial – foi marcado por diversas ações como ensaios, ampliação de repertório, e concertos, dentre os quais a memorável apresentação no recital de encerramento da abertura do XIX Festival Internacional de Flautistas da Associação Brasileira de Flautistas, em Paraty, Rio de Janeiro, com um repertório de compositores baianos, e a participação musical na Feira Literária de Mucugê (Fligê), em Igatu, na Chapada Diamantina.
PARA 2024
Já para 2024, Lucas Robatto conta que, provavelmente, no princípio do ano, o Quarteto, a convite, participará da sessão de estreia, na Bahia, executando ao vivo a trilha sonora do filme “Amazonas, maior rio do mundo”, do diretor Silvino Santos, 1° longa metragem filmado na Amazônia em 1918, e que ficou desaparecido por um século. Além disso, será desenvolvido um projeto com dimensão musicológica, ensino de flauta e apresentação artística junto à comunidade de Vila de Igatu, na Chapada Diamantina. João acrescenta que a publicação das partituras dedicadas ao Quarteto de Flautas da Bahia, está em andamento e é um importante projeto para 2024, pois existe pouco material para esse tipo de conjunto; a viabilização de uma pequena turnê no Brasil também está nos planos do Quarteto, além de iniciar uma articulação de apresentações no exterior a fim de disseminar a cultura da flauta e divulgar o repertório que o grupo vem construindo.
O grupo espera que no ano de 2024 haja mais investimentos financeiros na cultura, sobretudo na música de câmara, inclusive por parte da universidade que precisa renovar o olhar sobre a área artística musical e investir de forma mais efetiva nesse setor, a fim de oferecer uma oportunidade de fruição estética à comunidade, ampliando assim, seu horizonte cultural.
O Quarteto de Flautas já vem colhendo os frutos da dedicação aos trabalhos voltados à música. Que novas portas se abram, através de projetos de incentivo à cultura.


