A bomba-relógio do Senado e o recado da “piauí” para Alessandro Vieira
A revista “piauí” — assim mesmo, com inicial minúscula — é uma publicação mensal brasileira fundada em 2006 pelo documentarista João Moreira Salles, herdeiro do império bancário Itaú. Reconhecida pela excelência no jornalismo literário, por reportagens aprofundadas, perfis políticos minuciosos e ensaios culturais de alta qualidade, a revista consolidou-se como uma das mais sofisticadas publicações do país.
A edição 236, deste mês de maio, traz um texto de Fernando de Barros e Silva, jornalista brasileiro, ex-colunista da Folha de S.Paulo, onde também editou os cadernos “Brasil” e “Painel”. Atualmente, ele responde pela direção de Redação da “piauí” e é autor de “Chico Buarque”, livro biográfico publicado em 2004. No artigo, o jornalista analisa o que chama de uma “bomba-relógio” de existência não material, pulsando silenciosamente no interior da estátua que simboliza a Justiça, em frente ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília. “Ela se encontra lá dentro, entranhada no granito da escultura, à espera do momento de mandar tudo pelos ares”, escreve.
De acordo com Fernando de Barros e Silva, as atenções se voltam com curiosidade inédita para “os marmanjos do Senado, que terá dois terços de suas cadeiras renovadas”. Como se sabe, é no Senado que tramitam os processos contra ministros do STF por eventuais crimes de responsabilidade — algo que nunca ocorreu no Brasil. Resumo da ópera: “A eleição ao Senado será país afora um imenso plebiscito sobre o impeachment de ministros do STF.”
É aqui que entra um personagem da política sergipana. O texto, publicado à página 6 sob o título “Voltei, mané”, desenha como a direita se mobiliza para formar uma ampla maioria no Senado e, dessa forma, controlar com cabresto curto o próximo governo — não importa quem vença, frise-se —, além de estabelecer um novo patamar nas relações com o Poder Judiciário, especialmente com o STF. Diante das movimentações recentes, o jornalista alerta que a bomba “segue seu curso e vai engordando dentro da estátua enquanto aguarda o momento de parir o caos, em 2027.”
Mas seria isso “coisa de golpistas?”, questiona Fernando de Barros e Silva. Ele mesmo responde: “Não só, ou não necessariamente. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), por exemplo, não é um deles, nunca foi. Pode-se chamá-lo de conservador, de inocente útil, até mesmo de idiota político a serviço da moralidade. O relatório que ele produziu como resultado da CPI do Crime Organizado só teve a adesão de políticos simpáticos a (Jair) Bolsonaro e acabou rejeitado na própria comissão. Era uma peça esdrúxula, que relegava a segundo plano seu objeto — o crime organizado — para pedir o indiciamento de três ministros do STF em razão de suas relações com o caso Master.”
O jornalista afirma ainda que “as motivações eleitoreiras do senador ficaram óbvias, mas isso é o menos importante. O gesto de (Alessandro) Vieira, mais do que uma apelação à caça de votos no Sergipe, é um sintoma do que está por vir em âmbito nacional. Assim como também foi sintomática, no pior sentido, a reação dos magistrados citados no episódio.”
Ou seja, para Fernando de Barros e Silva, não há dúvida de que o parlamentar por Sergipe buscava prestígio eleitoral ao elaborar seu tosco relatório. Mas também não se pode negar que, ao tratar ministros como “bandidos”, acabou gerando mais asco do que adesão. E aqui cabe inferir: talvez seja hora de o eleitor refletir se vale mesmo a pena garantir um novo mandato a um senador birrento, que tumultua mais do que produz.
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