Os Nômades: Os Rapazes de Itabaiana que Levaram o Iê-Iê-Iê pelas Estradas de Sergipe

Emanuel Rocha*

Quando Sergipe dançava ao som das guitarras elétricas e os Nômades cruzavam as estradas da música.

Ao longo desta caminhada pelas páginas da história musical sergipana, viajamos por uma época em que as guitarras elétricas começavam a conquistar a juventude, os clubes sociais se transformavam em grandes salões de encontro e os bailes embalavam sonhos, romances e amizades. Passamos pelos palcos onde os Vikings ajudaram a popularizar os novos ritmos, acompanhamos o sucesso dos Los Guaranis, admiramos a sofisticação de Medeiros e Seus Big Boys, sentimos a vibração contagiante do Brasas 10, recordamos a animação dos Unidos do Ritmo, revivemos o entusiasmo juvenil dos The Tops e mergulhamos nas histórias dos Comanches e dos Apaches, conjuntos que ajudaram a construir a identidade sonora de uma geração.

Cada banda trouxe sua contribuição para a formação de um cenário musical rico e diverso, que transformou as noites de Aracaju e de muitas cidades do interior em espaços de celebração, dança e descoberta. Foram grupos que deixaram suas marcas nos clubes, nas rádios, nos festivais e, sobretudo, na memória daqueles que viveram aquele período de efervescência cultural.

Agora, nossa viagem se aproxima do fim. Mas antes de encerrar este percurso pelos conjuntos que ajudaram a escrever uma importante página da música sergipana, faremos uma última parada na cidade de Itabaiana. É lá que encontramos a história dos Nômades, uma banda que, mesmo tendo deixado poucos registros materiais, permanece viva nas lembranças de músicos, familiares e admiradores. Entre guitarras, baterias e sonhos juvenis, os Nômades representam não apenas um conjunto musical, mas também a força criativa de uma geração que encontrou na música uma forma de expressar seus anseios e de levar o nome de sua cidade para além de suas fronteiras.

Os Nômades surgiram em um período de grandes transformações na música brasileira. A Jovem Guarda dominava as rádios, os discos de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa circulavam entre os jovens, e as guitarras elétricas passavam a ocupar um espaço que antes pertencia quase exclusivamente aos conjuntos de seresta, boleros e sambas-canção. Em Sergipe, essa influência encontrou terreno fértil, especialmente entre os rapazes que sonhavam em montar suas próprias bandas e conquistar espaço nos bailes que movimentavam os finais de semana.

Foi nesse contexto que a cidade de Itabaiana viu nascer um dos seus mais lembrados conjuntos musicais. Liderados por Melcíades, os Nômades reuniram músicos que compartilhavam a mesma paixão pela música e pela novidade que tomava conta da juventude da época. Anatólio, filho de Dr. Pedro, assumia a bateria; Luís Conceição comandava o baixo; Raimundo dava vida aos solos de guitarra; e Luiz, que anos mais tarde seguiria para os Los Guaranis, completava a formação que faria parte da memória musical sergipana.

Como tantas bandas daquele período, os Nômades construíram sua trajetória muito mais nos palcos do que nos estúdios. Os registros fonográficos eram raros, as oportunidades de gravação praticamente inexistentes para grupos do interior, e o verdadeiro termômetro do sucesso estava na quantidade de convites para bailes, festas e apresentações públicas. Era diante do público que uma banda conquistava respeito e reconhecimento.

Os ensaios, muitas vezes realizados em espaços improvisados, eram marcados pela dedicação de jovens que conciliavam a música com o trabalho, os estudos e as responsabilidades familiares. Cada nova canção aprendida representava uma vitória. Cada apresentação era aguardada com ansiedade. E cada aplauso confirmava que estavam no caminho certo.

Em pouco tempo, os Nômades passaram a ser conhecidos não apenas em Itabaiana, mas também em outras cidades sergipanas. Suas apresentações os levaram a participar de eventos que reuniam a juventude da época, aproximando-os de outros conjuntos que ajudavam a moldar a cena musical do estado. O rádio, principal meio de divulgação daqueles anos, desempenhou papel fundamental nessa expansão, permitindo que o nome da banda chegasse a públicos cada vez mais distantes.

Embora muitas informações tenham se perdido com o passar das décadas, permanece a certeza de que os Nômades integraram um movimento cultural que transformou a vida social sergipana. Os bailes deixaram de ser apenas encontros festivos para se tornarem espaços onde uma nova geração expressava seus gostos, sua identidade e sua visão de mundo. E os Nômades estavam entre os grupos que forneceram a trilha sonora dessa transformação.

Hoje, porém, reconstruir a trajetória dos Nômades não é uma tarefa simples. Embora conheçamos alguns nomes de seus integrantes e possamos identificar sua participação em importantes momentos da cena musical sergipana, grande parte dessa história permanece dispersa na memória de antigos músicos, familiares e frequentadores dos bailes da época.

A escassez de fotografias, gravações, cartazes, programas de eventos e documentos preservados em arquivos públicos faz com que o pesquisador dependa muitas vezes de depoimentos orais e de pequenas referências encontradas em jornais antigos. Essa ausência de políticas permanentes de preservação da memória cultural acabou deixando lacunas importantes sobre bandas que movimentaram clubes, praças, programas de rádio e festas por todo o estado.

Talvez por isso a história dos Nômades carregue um encanto especial. Diferentemente das grandes bandas nacionais, que tiveram discos, revistas e programas de televisão registrando seus passos, os conjuntos sergipanos viveram intensamente seu tempo, mas deixaram poucos vestígios materiais. O que resta são fragmentos: um anúncio de baile esquecido numa página de jornal, uma fotografia amarelada guardada numa gaveta, uma lembrança contada por alguém que dançou ao som da banda numa noite distante dos anos 1960.

Infelizmente, o tempo nem sempre foi generoso com essa memória. Muitas fotografias foram perdidas, instrumentos desapareceram, documentos ficaram espalhados em acervos particulares e inúmeras histórias partiram junto com seus protagonistas. O resultado é que, décadas depois, pesquisadores e apaixonados pela cultura sergipana precisam agir quase como arqueólogos da memória, reunindo pequenos indícios para reconstruir uma narrativa que jamais deveria ter sido esquecida.

Ainda assim, cada novo depoimento ajuda a iluminar um pouco mais esse passado. Quando um antigo músico recorda um ensaio, quando um familiar identifica um rosto numa fotografia antiga ou quando um colecionador encontra um recorte de jornal guardado há décadas, uma parte da história volta à vida.

É dessa forma que os Nômades continuam existindo. Não apenas como uma banda de Itabaiana, mas como representantes de uma época em que a música era capaz de unir cidades, aproximar pessoas e transformar jovens sonhadores em protagonistas da cultura sergipana.

Resgatar a trajetória dos Nômades é também prestar homenagem a dezenas de outros conjuntos que animaram Sergipe durante os anos dourados dos bailes e da Jovem Guarda. É reconhecer que a história cultural de um povo não é feita apenas pelos artistas que alcançam fama nacional, mas também por aqueles que marcaram profundamente a vida de suas comunidades.

Chegamos ao final desta caminhada pela história das bandas sergipanas que ajudaram a embalar os sonhos, os encontros e as noites festivas de uma geração. Entre palcos improvisados, clubes sociais, programas de rádio e bailes que atravessaram décadas, encontramos músicos talentosos, histórias de amizade, desafios e uma enorme paixão pela música. Muito do que esses conjuntos construíram se perdeu com o tempo, levado pelo desaparecimento de fotografias, documentos e registros sonoros. Ainda assim, suas lembranças permanecem vivas na memória daqueles que viveram aquela época e nos fragmentos que resistiram ao esquecimento.

Este trabalho não pretende ser o ponto final dessa história, mas uma contribuição para que ela continue sendo contada. Ao registrar a trajetória de bandas como Vikings, Los Guaranis, Medeiros e Seus Big Boys, Brasas 10, Unidos do Ritmo, The Tops, Comanches, Apaches e Os Nômades, deixamos uma pequena homenagem a todos os músicos que ajudaram a construir a rica paisagem musical sergipana do século passado. Que estas páginas sirvam como um arquivo de memória, um convite à pesquisa e uma forma de garantir que essas histórias não desapareçam com o passar dos anos.

Mais do que preservar a memória de bandas e músicos, este trabalho também nos conduz a uma reflexão necessária: Sergipe já passou da hora de possuir um verdadeiro Museu da Imagem e do Som. Quantas fotografias, gravações, cartazes, discos, fitas, programas de rádio, filmes e documentos históricos já se perderam ao longo das décadas por falta de um espaço dedicado à preservação da memória audiovisual do estado? Quantas histórias de músicos, radialistas, fotógrafos, cinegrafistas, produtores culturais e artistas desapareceram sem deixar rastros para as futuras gerações?

A criação de um Museu da Imagem e do Som em Sergipe não seria apenas um investimento em cultura, mas um compromisso com a preservação da nossa identidade. Seria um lugar para guardar, catalogar, restaurar e compartilhar a memória daqueles que ajudaram a construir a história cultural sergipana. Um espaço onde estudantes, pesquisadores e a população pudessem encontrar registros que hoje permanecem dispersos em coleções particulares ou ameaçados pelo esquecimento.

Enquanto esse sonho não se torna realidade, cabe aos pesquisadores, familiares, colecionadores, jornalistas e apaixonados pela história continuar essa missão de resgate. Afinal, um povo que perde sua memória corre o risco de perder também parte de sua própria identidade.

E assim nos despedimos desta jornada. Não como quem encerra uma história, mas como quem deixa uma porta aberta para novas descobertas. Porque enquanto houver alguém disposto a recordar, pesquisar, preservar e compartilhar essas lembranças, a música continuará tocando. E as bandas que um dia fizeram Sergipe cantar e dançar jamais serão silenciadas pelo tempo.

* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor  e repórter fotográfico