Na Caçuá do Nordeste: Cordel, Festejos Juninos e Cultura Popular
Emanuel Rocha*
Da poesia dos cordéis ao brilho das quadrilhas, uma celebração da fé, do forró e das tradições que mantêm viva a cultura nordestina.
O cordel é uma das mais importantes manifestações da cultura popular nordestina. Sua origem está ligada aos antigos folhetos populares que circulavam em Portugal e que, ao chegarem ao Brasil, encontraram no Nordeste um lugar fértil para florescer. Com versos rimados e linguagem simples, os cordelistas passaram a contar histórias, registrar acontecimentos, transmitir ensinamentos e preservar a memória do povo.
Em Sergipe, o cordel continua sendo uma importante expressão da cultura popular, embora ainda necessite de maior valorização e incentivo. Por meio dele são narradas histórias de cidades, personagens, tradições, lendas e manifestações culturais que ajudam a preservar e fortalecer a identidade sergipana. Apesar dos desafios e do espaço ainda limitado em muitas escolas e instituições culturais, diversos cordelistas, educadores, pesquisadores e amantes da literatura popular seguem fazendo sua parte, escrevendo, divulgando e mantendo viva essa tradição.
Assim como o cordel, os festejos juninos também representam uma das mais ricas expressões da cultura popular nordestina. Ambos ajudam a preservar memórias, fortalecer identidades e transmitir conhecimentos e costumes de uma geração para outra. Se o cordel guarda histórias em seus versos, o São João mantém vivas essas mesmas tradições por meio do forró, das quadrilhas, das comidas típicas, das fogueiras e das celebrações comunitárias.
Não por acaso, cordel e festejos juninos caminham juntos. Os mesmos valores presentes nos folhetos de cordel, como a valorização da cultura popular, da vida comunitária, da fé, da música e das tradições nordestinas, também estão presentes nas festas de São João. São manifestações que se complementam e ajudam a contar a história do povo nordestino.
Em Sergipe, essa ligação é ainda mais forte. Enquanto os cordelistas registram em versos as histórias e costumes do nosso povo, os festejos juninos transformam essas tradições em música, dança, cores e celebração. É como se cordel, São João e cultura popular viajassem juntos na mesma caçuá, carregando as riquezas culturais que fazem parte da identidade sergipana e nordestina.
Assim como a caçuá transporta riquezas pelos caminhos do sertão, o cordel, o São João e a cultura popular carregam os tesouros da tradição nordestina. Juntos, ajudam a contar a história do nosso povo e a manter vivas as manifestações culturais que fazem do Nordeste uma das regiões mais ricas e encantadoras do Brasil.
É nesse clima de alegria, memória e tradição que começa o nosso cordel.
Cordel das Festas Juninas de Sergipe
Na caçuá do Nordeste,
Tem riqueza popular,
Tem cordel e tem quadrilha,
Tem sanfona a tocar,
Tem a força da cultura
Que o tempo não vai levar.
Em Sergipe o bom cordel
Faz a cultura crescer,
Mesmo faltando incentivo
Nunca deixa de viver,
Pois o povo sergipano
Faz sua chama acender.
Chegou o mês de São João,
Com fogueira no terreiro,
Tem sanfona e animação,
Tem bandeira o tempo inteiro,
Cada rua vira festa,
Do pequeno ao fazendeiro.
No terreiro iluminado,
O forró segue ligeiro,
Tem matuto arrumado,
Tem sorriso verdadeiro,
E o povo dança contente,
Até clarear o roteiro.
Tem canjica e mungunzá,
Milho assado e pé de moleque,
Tem pamonha pra provar,
Tem o milho que enriquece,
São sabores do Nordeste
Que o nosso povo conhece.
Quando a quadrilha começa,
Todo mundo quer dançar,
O noivo chega apressado,
Pra noiva poder casar,
E o padre da brincadeira
Faz o povo gargalhar.
A zabumba bate forte,
Junto ao som do acordeão,
O triângulo acompanha
Espalhando animação,
Fazendo o povo esquecer
Toda dor do coração.
Santo Antônio é lembrado,
Como santo casamenteiro,
São João é festejado
Do roçado ao tabuleiro,
E São Pedro abre as portas
Do inverno brasileiro.
No Nordeste essa festa
Tem valor tradicional,
Misturando fé e dança
Num costume sem igual,
Que atravessa gerações
Como um bem cultural.
Em Sergipe o São João
Tem um brilho sem igual,
Junho e julho são de festa
Num festejo sem rival,
Sessenta dias de forró
Do agreste ao litoral.
Turista que aqui chega
Pra conhecer nosso chão,
Fica logo admirado
Com tamanha animação,
Pois Sergipe faz da festa
Um retrato da paixão.
Aracaju se transforma
Quando junho vem chegar,
Com forró por toda parte
E o povo a festejar,
Mostrando sua cultura
Pra quem vem nos visitar.
Do agreste ao litoral,
A sanfona faz morada,
No sertão tradicional,
A cultura é cultivada,
Ninguém faz igual Sergipe,
Nesta terra abençoada.
Se a quadrilha entra em cena,
Ninguém fica sem olhar,
O brilho do nosso povo
Faz a praça se encantar,
No Brasil as de Sergipe
São difíceis de igualar.
A Chapéu de Couro mostra
Sua força sem igual,
Bi campeã brasileira,
Num feito sensacional,
Levantando a bandeira
Da cultura regional.
Tem também Assum Preto,
Que faz o povo vibrar,
Com beleza e tradição
Sempre pronta a encantar,
Levando o nome de Sergipe
Por onde se apresentar.
Unidos em Asa Branca
Fez Sergipe se orgulhar,
Foi campeã do Nordeste,
Fez seu nome consagrar,
Com talento e disciplina
Veio o povo conquistar.
Pioneiros da Roça traz
A cultura popular,
Recordando as raízes
Que o tempo não vai levar,
Com orgulho e alegria
Faz o povo se encantar.
Raio da Silibrina
Faz a multidão cantar,
Com seus temas e coreias
Que encantam qualquer lugar,
Mantendo viva a cultura
Que Sergipe quer guardar.
Forró do Milho se apresenta
Com orgulho popular,
Traz o cheiro da colheita
E o sabor do festejar,
Fazendo o povo lembrar
Das raízes do lugar.
Quando entra o Xodó da Vila
Todo mundo quer olhar,
Com seu brilho e alegria
Faz a praça festejar,
Mostrando que a tradição
Nunca pode se apagar.
A Século XX segue
Fazendo a tradição,
Campeã do Levanta Poeira,
Encheu Sergipe de emoção,
Com talento e batida forte
Conquistou a premiação.
São quadrilhas sergipanas
Que merecem exaltação,
Guardam arte e tradição
Dentro do coração,
Mantendo viva a cultura
Do nosso amado torrão.
Em Aracaju tem festa,
Que faz o povo se encantar,
Na Vila do Forró vive
A sanfona a tocar,
São sessenta dias seguidos,
Sem a alegria parar.
Tem zabumba e tem baião,
Tem xote pra namorar,
Tem quadrilha colorida
Pra o povo apreciar,
Na Vila do Forró o sonho
Parece nunca acabar.
Tem também o Forró Caju,
Tradição do meu lugar,
Na Praça dos Mercados
O povo vai se encontrar,
Entre cantos e sorrisos
Para junho celebrar.
É cultura nordestina,
Que Sergipe faz brilhar,
Com alegria e memória
Que o tempo não vai levar,
Misturando fé e festa
Num eterno festejar.
Agradeço a você,
Do campo ou da cidade,
Que tirou um tempinho
Com tanta boa vontade,
Por você tenho carinho,
Respeito e amizade.
Que o turista leve embora
Na sua caçuá de emoção,
O sorriso do nosso povo,
Guardado no coração,
As lembranças desta festa
E a força da tradição.
Chega ao fim este cordel,
Com respeito e gratidão,
Desejando muita paz,
Alegria no coração,
E que Deus abençoe sempre
Os festejos de São João.
* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico


