São João de Aracaju: Quando a Sanfona Era a Estrela da Festa

Emanuel Rocha*

Memórias de um tempo em que a comunidade era o palco, a sanfona era soberana e o forró contava a história do povo nordestino.

Estamos em junho, o mês das festas juninas. O Nordeste se enche de cores, bandeirinhas e fogueiras, e no ar já se sente aquele chamado antigo da sanfona anunciando que a festa vai começar. É tempo de celebrar uma das tradições mais bonitas e representativas da cultura nordestina.

E se há algo que o tempo não apaga, é a memória dos grandes São Joões que Aracaju viveu, especialmente entre as décadas de 1950 e o início dos anos 1990. Naqueles tempos, a festa era mais que diversão. Era encontro, fé, partilha e vida comunitária.

Meses antes, famílias e vizinhos já começavam os preparativos. As ruas se transformavam em grandes arraiais a céu aberto. Bandeirinhas coloriam os céus, mastros eram erguidos e as fogueiras se tornavam o coração da festa. Havia até disputas amistosas para saber qual rua estava mais bonita e animada.

Nas comunidades populares, os festejos ganhavam identidade própria. O Arraiá do Josa, no Novo Paraíso, atraía multidões ao som da zabumba e da sanfona. O Arraiá das Veias mantinha uma saudável rivalidade, levando os forrozeiros a circularem de um lado para outro em busca da melhor animação. Muitos chegavam a pé, de bicicleta ou a cavalo; outros vinham em seus automóveis, atraídos pela fama dos festejos.

No bairro América, o Arraiá do Alto do Miolo iluminava as noites com muito forró. Já no Cirurgia, o lendário Arranca Unha atravessava madrugadas embalado pelo fole, pelo triângulo e pela zabumba. Cada bairro tinha sua marca, seu jeito de festejar e suas histórias para contar.

As noites costumavam começar com as novenas dedicadas a Santo Antônio, São João e São Pedro. A fé reunia as famílias e fortalecia os laços da comunidade. Mas bastava a última oração terminar para que as cadeiras fossem afastadas e o forró tomasse conta do ambiente. A sanfona puxava os primeiros acordes e ninguém conseguia ficar parado.

Os sanfoneiros eram os grandes reis da festa. Muitos tocavam por amor à tradição, sem luxo, sem camarins e sem grandes exigências. O pagamento vinha no sorriso do povo, na casa cheia e na alegria de ver gerações inteiras dançando juntas.

Nem tudo era solenidade. Havia também as brincadeiras que arrancavam gargalhadas. O famoso cordão cheiroso, quando aceso por algum gaiato, espalhava um odor tão forte que fazia a multidão se dispersar correndo e rindo. E quando algum dançarino exagerava na animação, não faltava um sanfoneiro bem-humorado para interromper a música e fazer uma observação espirituosa que virava motivo de risos para o resto da noite.

Ao redor das fogueiras aconteciam os batizados simbólicos e os casamentos matutos. Eram tradições que fortaleciam os vínculos entre vizinhos e amigos. Quando a fogueira virava brasa, começavam as conversas, as histórias e as lembranças compartilhadas entre gerações.

Também havia as famosas batalhas de busca-pés. Em terrenos abertos, grupos de jovens se enfrentavam em meio a faíscas, estampidos e muita adrenalina. Era uma diversão típica de uma época em que os festejos ocupavam todos os espaços da cidade.

E nenhuma festa estaria completa sem a culinária junina. Nas mesas fartas apareciam milho cozido, pamonha, canjica, mungunzá, pé de moleque, bolo de macaxeira, bolo de puba e os tradicionais licores. Mais do que comida, era um gesto de acolhimento. Sempre havia lugar para mais um à mesa.

Aracaju se iluminava com centenas de fogueiras espalhadas pelos bairros. O cheiro da madeira queimando se misturava ao milho assado e ao som distante das sanfonas. As ruas se tornavam espaços de convivência, onde crianças brincavam, jovens namoravam e os mais velhos contavam histórias enquanto observavam o movimento da festa.

Hoje os festejos são diferentes. Os grandes palcos, os equipamentos modernos e as multidões passaram a ocupar o centro das celebrações. É natural que a cultura se transforme com o passar do tempo. O problema surge quando a busca por públicos cada vez maiores começa a empurrar para o canto aquilo que deu origem à própria festa.

Em muitas cidades, o forró autêntico passou a disputar espaço com atrações que pouco ou nada têm a ver com a tradição junina. A sanfona, a zabumba e o triângulo, símbolos maiores da identidade nordestina, muitas vezes cedem lugar a espetáculos que poderiam acontecer em qualquer época do ano e em qualquer lugar do país. Trocam-se as raízes pela popularidade momentânea, como se a cultura precisasse abandonar sua essência para continuar existindo.

Não se trata de rejeitar o novo, mas de preservar aquilo que faz do São João uma celebração única. Afinal, uma festa sem identidade pode reunir multidões, mas dificilmente conseguirá transmitir às futuras gerações o mesmo sentimento de pertencimento que marcou os antigos arraiais.

Que os festejos continuem crescendo, atraindo visitantes e movimentando a economia. Mas que nunca esqueçam que sua maior riqueza não está nos refletores nem nos cachês milionários. Está na cultura popular que lhes deu origem, na sanfona que embalou gerações, nos arraiais erguidos pelo próprio povo e no forró que contava, em versos e melodias, a história do Nordeste.

Porque, se a tradição virar apenas decoração de palco, as bandeirinhas continuarão colorindo o céu, as fogueiras continuarão acesas e as multidões continuarão chegando. Mas algo essencial terá sido perdido. E quando a sanfona deixar de ser a estrela da festa, o São João poderá continuar existindo, mas já não será o mesmo que vive na memória e no coração do povo nordestino.

* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor  e repórter fotográfico