Grota do Angico recebe a XXIX Missa do Cangaço em julho

Emanuel Rocha*

Quatro dias de atividades levam participantes por locais emblemáticos do sertão nordestino, culminando na tradicional Missa do Cangaço na Grota do Angico.

O sertão nordestino se prepara para reviver uma de suas passagens mais marcantes e simbólicas. No próximo dia 28 de julho de 2026, o Monumento Natural Grota do Angico, localizado em Poço Redondo, será palco da XXIX Missa do Cangaço. O evento cultural e religioso, consolidado como uma das mais importantes tradições do Alto Sertão sergipano, relembra o amanhecer de 28 de julho de 1938, quando Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita) e outros integrantes do bando foram mortos em uma emboscada das forças volantes.

Mais do que uma celebração religiosa, a Missa do Cangaço transformou-se em um encontro de memória, cultura e reflexão histórica sobre o sertão nordestino e o fenômeno do cangaço. A programação deste ano reunirá pesquisadores, historiadores, poetas populares, turistas e admiradores da cultura sertaneja em um roteiro que percorre lugares emblemáticos dos estados de Sergipe, Bahia e Alagoas.

Entre os convidados está Expedita Ferreira Nunes, única filha de Lampião e Maria Bonita, que participará do evento acompanhada de filhos e netos. Também estará presente Vera Ferreira, idealizadora e organizadora da Missa do Cangaço, reconhecida nacionalmente pelo trabalho de preservação da memória do cangaço nordestino.

Os caminhos da história

A programação será desenvolvida ao longo de quatro dias, conduzindo os participantes por locais históricos ligados ao cangaço, ao sertão e a importantes movimentos populares nordestinos.

25 de julho (sábado)

A saída acontecerá às 5 horas da manhã, da CCETECA, em Aracaju, com destino a Paulo Afonso. A programação inclui palestra sobre Antônio Conselheiro, ministrada pelo historiador João Batista, além de visita à hidrelétrica da cidade.

26 de julho (domingo)

O dia será dedicado à visita de locais históricos ligados ao cangaço, entre eles o Museu Maria Bonita, onde haverá uma conversa sobre a trajetória da cangaceira. Após o almoço, o grupo seguirá para Piranhas.

27 de julho (segunda-feira)

Os participantes farão um passeio de catamarã pelos cânions do Rio São Francisco, seguido de almoço no Restaurante Karrancas.

28 de julho (terça-feira)

O último dia começa nas primeiras horas da manhã, com saída para o Cangaço Eco Parque e visita ao Monumento Natural Grota do Angico.

O momento mais aguardado da programação acontece às 9h40, quando será realizada uma breve explanação sobre o episódio ocorrido em 1938. Em seguida, será celebrada a XXIX Missa do Cangaço, em meio à paisagem da caatinga sergipana, exatamente onde a história registrou o fim do mais famoso grupo de cangaceiros do Brasil.

Após o almoço de confraternização, os participantes iniciarão o retorno para Aracaju.

Onde a história permanece viva

Todos os anos, a Grota do Angico deixa de ser apenas um cenário histórico para transformar-se em um espaço de encontro entre diferentes gerações. Ali se reúnem pesquisadores, sertanejos, descendentes de personagens do cangaço, estudiosos, artistas e visitantes que compartilham o interesse por um dos períodos mais marcantes da história nordestina.

Mais do que recordar o confronto que encerrou a trajetória de Lampião e parte de seu grupo, a Missa do Cangaço convida à reflexão sobre a complexidade daquele tempo, preservando um patrimônio histórico que continua despertando pesquisas, debates e manifestações culturais.

Ao percorrer as trilhas da caatinga até a Grota do Angico, cada participante também percorre um caminho de memória. O silêncio da paisagem, o canto dos pássaros e a vegetação sertaneja ajudam a compreender que aquele lugar ultrapassou a condição de palco de um episódio histórico para tornar-se um símbolo da identidade cultural do Nordeste.

Assim, a XXIX Missa do Cangaço reafirma seu papel como um dos mais importantes encontros dedicados à preservação da memória sertaneja. A cada edição, o evento fortalece os laços entre história, cultura e espiritualidade, permitindo que novas gerações conheçam um capítulo marcante da formação do sertão brasileiro. Na Grota do Angico, onde o passado permanece gravado na paisagem da caatinga, a memória continua viva, inspirando reflexão, respeito e valorização do patrimônio histórico e cultural do Nordeste.

* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico